Nenhum exame neurológico faz diagnóstico sozinho: todos respondem a uma pergunta formulada por quem examinou o paciente. A parte mais útil de entendê-los é saber o que não está no alcance de cada um — um eletroencefalograma normal não exclui epilepsia. As indicações clínicas ficam nas páginas de cada condição.
Eletroencefalograma (EEG)
O que responde. Registra a atividade elétrica do cérebro na superfície do couro cabeludo. Ajuda a classificar as crises e a epilepsia e a avaliar confusão e alteração do nível de consciência.
Como é feito. Eletrodos colados no couro cabeludo com pasta condutora. É indolor e não aplica corrente — apenas capta. O técnico costuma pedir hiperventilação e usar estímulo luminoso; o sono também aumenta o rendimento, e por isso alguns pedidos incluem privação parcial de sono na véspera [3].
Preparo e duração. Cabelo limpo e sem produto; não suspenda medicação por conta própria; se o pedido especificar privação de sono, siga a instrução do serviço. O EEG de rotina leva menos de uma hora; registro prolongado e vídeo-EEG são exames diferentes.
O que ele não responde. Um EEG normal não exclui epilepsia. Em uma série prospectiva de 1.080 exames, a sensibilidade foi de 58% em crianças e adolescentes, 40% em adultos e 39% em idosos, com especificidade entre 93% e 95% [1]. Quando aparece alteração epileptiforme, ela pesa; quando não aparece, o exame não descarta nada — a literatura recente aponta a baixa sensibilidade e o risco de interpretar mal as descargas como limitações do EEG de rotina [2]. Ele também não mede inteligência nem personalidade. Sobre indicação, veja epilepsia.
Eletroneuromiografia (ENMG)
O que responde. Onde está a lesão do nervo ou do músculo e qual o padrão do comprometimento. Separa polineuropatia de lesão de um nervo só e de compressão de raiz nervosa.
Como é feito. Em duas partes. Na condução nervosa, eletrodos de superfície captam a resposta a pequenos estímulos elétricos na pele. Na eletromiografia de agulha, uma agulha fina registra a atividade dentro do músculo, em repouso e na contração.
Dói? É desconfortável, e o desconforto surpreende: em uma série de 200 pacientes, 58,5% acharam a condução nervosa mais incômoda que a agulha [4]. Em crianças, um estudo com 100 casos encontrou dor na faixa moderada, e 66% descreveram o incômodo como igual ou menor ao de uma coleta de sangue [5].
Preparo. Pele limpa, sem creme, e roupa que permita expor braços e pernas. Informe se usa anticoagulante, se tem alteração de coagulação ou dispositivo cardíaco implantado.
O que ela não responde. Não mede dor e não diz qual é a causa da neuropatia — diz onde e como o nervo está comprometido; a causa vem da investigação clínica e laboratorial. Veja neuropatias periféricas e doenças neuromusculares.
Avaliação neuropsicológica
O que responde. Caracteriza o perfil cognitivo — memória, atenção, linguagem, funções executivas, velocidade de processamento — comparando o desempenho com normas de idade e escolaridade.
Como é feito. Uma sequência de tarefas aplicadas por neuropsicólogo, em entrevista e testes verbais e de manipulação, geralmente em duas sessões. Não há agulha nem eletrodo, e a entrevista com um acompanhante costuma integrar a avaliação.
Preparo. Dormir bem na véspera, levar óculos, aparelho auditivo e a lista de medicações, e não fazer o exame em quadro agudo — infecção, dor intensa ou noite mal dormida alteram o resultado.
O que ela não responde. Não faz diagnóstico por si só e não confirma nem exclui um transtorno do neurodesenvolvimento. No TDAH do adulto, perfis atípicos podem complicar o processo diagnóstico em vez de resolvê-lo [6]. Também não é um "exame de Alzheimer": a maior parte de quem procura ajuda por queixa de memória não evolui para demência [7]. Veja Alzheimer e demências e TDAH no adulto.
Polissonografia
O que responde. Registra sono, respiração, oxigenação, ritmo cardíaco, movimentos das pernas e atividade muscular ao longo de uma noite. É o exame padrão para diagnosticar apneia obstrutiva do sono no adulto com suspeita clínica [8]. Como é feito e como se preparar está em exames diagnósticos em otorrinolaringologia.
O que interessa à neurologia. É ela, e não o teste domiciliar, a indicação desde o início em quem tem doença cardiorrespiratória significativa, fraqueza muscular de origem neuromuscular, uso crônico de opioides, antecedente de AVC ou insônia grave [8].
O que ela não responde. Questionários e escalas de sonolência não substituem o exame [8]. O teste domiciliar também não é equivalente: se vier negativo, inconclusivo ou tecnicamente inadequado, a recomendação é fazer a polissonografia [8]. E ela não define a conduta na insônia. Veja distúrbios do sono e apneia do sono e ronco.
Uma palavra sobre a ressonância
O limite dela: mostra estrutura, não função. Enxaqueca, cefaleia tensional e a maior parte das tonturas não têm achado de imagem. Na criança, o uso da imagem está em neuropediatria; sobre dor de cabeça, em enxaqueca e cefaleias.
Quando procurar atendimento
Diante de sintoma neurológico de início súbito — fraqueza ou dormência de um lado, alteração da fala, desvio da boca, perda visual —, acione o SAMU (192). Não espere o exame agendado. Veja AVC.
Vá ao pronto-socorro diante de crise convulsiva com mais de cinco minutos, crises repetidas sem recuperação entre elas, ou a primeira crise da vida.
Procure avaliação sem esperar o exame se o sintoma que motivou o pedido piorar enquanto você aguarda.
Perguntas frequentes
Meu EEG deu normal. Posso descartar epilepsia? Não. A sensibilidade do EEG de rotina fica entre 39% e 58% conforme a faixa etária [1]. Resultado normal é comum em quem tem epilepsia, e o diagnóstico é clínico.
A eletroneuromiografia dói muito? É desconfortável e tolerável. A parte que a maioria acha mais incômoda é a da estimulação elétrica, não a da agulha [4]; em crianças, o incômodo é comparável ao de uma coleta de sangue [5].
Posso pedir esses exames por conta própria? O resultado sem a pergunta clínica gera mais dúvida que resposta — inclusive achados sem significado que levam a novas investigações.
Preciso parar meus medicamentos antes? Não suspenda nada por conta própria. Qualquer ajuste é orientado por quem prescreveu.
Agende uma avaliação.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
- Grau-López L, Jiménez M, Ciurans J, Barambio S, Fumanal A, Becerra JL. Diagnostic Yield of Routine Electroencephalography With Concurrent Video Recording in Detecting Interictal Epileptiform Discharges in Relation to Reasons for Request: A Prospective Study of 1,080 Video-Electroencephalograms. J Clin Neurophysiol. 2017;34(5):434-437. DOI: https://doi.org/10.1097/WNP.0000000000000390 (PMID: 28520630)
- Lemoine É, Toffa D, Xu AQ, Tessier JD, Jemel M, Lesage F, et al. Improving diagnostic accuracy of routine EEG for epilepsy using deep learning. Brain Commun. 2025;7(5):fcaf319. DOI: https://doi.org/10.1093/braincomms/fcaf319 (PMID: 40933285)
- Das JC. Electroencephalogram (EEG) in the management of epilepsy in children. Mymensingh Med J. 2014;23(2):406-411. (PMID: 24858177)
- Jerath NU, Strader SB, Reddy CG, Swenson A, Kimura J, Aul E. Factors influencing aversion to specific electrodiagnostic studies. Brain Behav. 2014;4(5):698-702. DOI: https://doi.org/10.1002/brb3.240 (PMID: 25328846)
- Alshaikh NM, Martinez JP, Pitt MC. Perception of pain during electromyography in children: A prospective study. Muscle Nerve. 2016;54(3):422-426. DOI: https://doi.org/10.1002/mus.25069 (PMID: 26852012)
- Magnin E, Maurs C. Attention-deficit/hyperactivity disorder during adulthood. Rev Neurol (Paris). 2017;173(7-8):506-515. DOI: https://doi.org/10.1016/j.neurol.2017.07.008 (PMID: 28844700)
- Jessen F, Amariglio RE, Buckley RF, van der Flier WM, Han Y, Molinuevo JL, et al. The characterisation of subjective cognitive decline. Lancet Neurol. 2020;19(3):271-278. DOI: https://doi.org/10.1016/S1474-4422(19)30368-0 (PMID: 31958406)
- Kapur VK, Auckley DH, Chowdhuri S, Kuhlmann DC, Mehra R, Ramar K, et al. Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med. 2017;13(3):479-504. DOI: https://doi.org/10.5664/jcsm.6506 (PMID: 28162150)
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