Não necessariamente. Uma crise isolada não é, por si só, epilepsia: o diagnóstico depende de critérios internacionais e do risco de novas crises. A consulta reconstrói o que aconteceu, classifica o tipo de crise, procura uma causa e decide se há indicação de tratamento.
O que define epilepsia — e por que uma crise isolada nem sempre é
Pelos critérios da Liga Internacional contra a Epilepsia, há epilepsia quando ocorre pelo menos uma destas situações: duas crises não provocadas separadas por mais de 24 horas; uma crise não provocada em quem tem risco de nova crise semelhante ao de quem já teve duas — pelo menos 60% nos dez anos seguintes; ou o diagnóstico de uma síndrome epiléptica [1].
Crises provocadas por causa aguda identificável seguem outra lógica: o alvo do tratamento é a causa.
Depois de uma primeira crise não provocada em adulto, o risco de recorrência é maior nos dois primeiros anos e foi estimado entre 21% e 45% [2]. É esse número, e não a intensidade do susto, que orienta a decisão.
Nos critérios internacionais a epilepsia também pode ser considerada resolvida — em quem passou da faixa etária de uma síndrome dependente de idade, ou está há dez anos sem crises e cinco sem medicação [1].
Tipos de crise, em linguagem de paciente
A classificação atual organiza as crises pelo ponto onde começam [3]:
Crises focais começam em uma região de um hemisfério, com percepção preservada ou prejudicada, e aparecem como movimentos, automatismos, sensações, alterações emocionais ou parada súbita da atividade.
Crises generalizadas envolvem redes dos dois lados do cérebro desde o início: a tônico-clônica, imagem popular de "convulsão", e as ausências, com interrupção breve do contato com o ambiente.
Crise focal que evolui para tônico-clônica bilateral substituiu "secundariamente generalizada"; sem testemunha do início, registra-se início desconhecido. "Pequeno mal", "parcial simples" e "parcial complexa" saíram da classificação [3].
Como o diagnóstico é construído e o que cada exame responde
A história é a peça central: o relato de quem presenciou a crise costuma valer mais que a lembrança de quem a teve. Sangue e avaliação cardiológica identificam causas provocadas e separam a crise do desmaio.
Eletroencefalograma (EEG). Procura alterações elétricas que apoiem o diagnóstico e ajudem a classificar a crise; a alteração epileptiforme aumenta o risco de recorrência [2]. Um EEG normal não exclui epilepsia. Em pacientes internados após uma primeira crise, o EEG com privação de sono mostrou mais alterações quando feito nos três primeiros dias [4].
Ressonância magnética de crânio. Procura lesão estrutural que explique as crises; um achado significativo também eleva o risco de novas crises [2].
Princípios de tratamento
O tratamento medicamentoso é escolhido pelo tipo de crise e pela síndrome, preferencialmente em monoterapia. Doses e ajustes são definidos em consulta.
Em coorte de 1.795 pacientes recém-diagnosticados e acompanhados por até três décadas, 63,7% estavam sem crises havia pelo menos um ano ao fim do seguimento; entre eles, 86,8% usavam um único medicamento e 89,9% haviam alcançado o controle com o primeiro ou o segundo esquema [5]. A chance de controle cai a cada esquema seguinte.
Iniciar medicação logo após a primeira crise reduz o risco nos dois primeiros anos, mas não melhora a remissão a longo prazo; os efeitos adversos foram descritos entre 7% e 31%, em geral leves e reversíveis [2].
Epilepsia refratária e o que existe além do medicamento
Fala-se em epilepsia farmacorresistente quando dois esquemas adequados, bem tolerados e apropriadamente escolhidos falham em produzir controle sustentado das crises [6]. Nessa situação, a reavaliação diagnóstica vem antes de nova tentativa medicamentosa.
Para casos selecionados existe a cirurgia de epilepsia. Em ensaio randomizado interrompido precocemente por recrutamento lento, 11 de 15 operados ficaram livres de crises incapacitantes no segundo ano, contra nenhum dos 23 mantidos só em tratamento clínico — resultado que os autores pedem para ler com cautela [7].
A dieta cetogênica também figura entre as opções para epilepsia resistente a medicamentos [8].
A indicação cirúrgica é avaliada em conjunto por neurologia e neurocirurgia: veja Cirurgia da epilepsia.
O que fazer diante de uma crise
Comece pelo que não se deve fazer. Não se coloca nada dentro da boca de quem está tendo uma crise. Ninguém engole a própria língua, e o objeto pode quebrar dentes, ferir quem socorre e obstruir a via aérea.
A crença é comum: em estudo populacional, só 26,9% e 35,4% dos participantes responderam corretamente que não se deve colocar algo duro na boca nem forçar sua abertura [9]. Também não se contêm os movimentos à força.
O que fazer é simples: afastar objetos, proteger a cabeça com algo macio, marcar o horário de início, virar a pessoa de lado quando os movimentos cessarem e permanecer ao lado dela até a recuperação. Chamar ajuda na hora certa é parte do primeiro socorro [11].
Quando procurar atendimento
Acione o SAMU (192) ou leve ao pronto-socorro se houver:
- Crise que ultrapassa cinco minutos — tempo a partir do qual se considera estado de mal epiléptico convulsivo [10]
- Crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas [10]
- Primeira crise da vida
- Crise com traumatismo, com dificuldade para respirar, ou em gestante
- Crise em quem não recupera a consciência
Procure avaliação neurológica agendada se as crises mudaram de padrão, persistem apesar do tratamento, se surgirem efeitos adversos, se houver planejamento de gestação ou dúvida sobre trabalho e direção.
Perguntas frequentes
EEG normal quer dizer que não tenho epilepsia? Não. O EEG apoia o diagnóstico quando mostra alterações, mas um exame normal não o exclui [2,4].
Epilepsia tem cura? O termo dos critérios internacionais é "resolvida", aplicável a quem passou da faixa etária de uma síndrome dependente de idade ou está há dez anos sem crises e cinco sem medicação [1]. A maior parte das pessoas alcança controle das crises com tratamento [5].
Posso dirigir e trabalhar normalmente? Depende do controle das crises e das regras de cada atividade. É assunto de consulta.
Veja também Enxaqueca e cefaleias e Eletroencefalograma: preparo e o que mostra.
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
- Fisher RS, Acevedo C, Arzimanoglou A, Bogacz A, Cross JH, Elger CE, et al. ILAE official report: a practical clinical definition of epilepsy. Epilepsia. 2014;55(4):475-82. DOI: https://doi.org/10.1111/epi.12550 (PMID: 24730690)
- Krumholz A, Wiebe S, Gronseth GS, Gloss DS, Sanchez AM, Kabir AA, et al. Evidence-based guideline: Management of an unprovoked first seizure in adults: Report of the Guideline Development Subcommittee of the American Academy of Neurology and the American Epilepsy Society. Neurology. 2015;84(16):1705-13. DOI: https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000001487 (PMID: 25901057)
- Fisher RS, Cross JH, French JA, Higurashi N, Hirsch E, Jansen FE, et al. Operational classification of seizure types by the International League Against Epilepsy: Position Paper of the ILAE Commission for Classification and Terminology. Epilepsia. 2017;58(4):522-530. DOI: https://doi.org/10.1111/epi.13670 (PMID: 28276060)
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- Chen Z, Brodie MJ, Liew D, Kwan P. Treatment Outcomes in Patients With Newly Diagnosed Epilepsy Treated With Established and New Antiepileptic Drugs: A 30-Year Longitudinal Cohort Study. JAMA Neurol. 2018;75(3):279-286. DOI: https://doi.org/10.1001/jamaneurol.2017.3949 (PMID: 29279892)
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- Trinka E, Cock H, Hesdorffer D, Rossetti AO, Scheffer IE, Shinnar S, et al. A definition and classification of status epilepticus - Report of the ILAE Task Force on Classification of Status Epilepticus. Epilepsia. 2015;56(10):1515-23. DOI: https://doi.org/10.1111/epi.13121 (PMID: 26336950)
- Al-Dosary AS, AlGhamdi FM, Almutairi BF, Alquwaiz IAI, Alsomali AM, Algarni SA, et al. Public awareness of first-aid management of seizures in Saudi Arabia. Epilepsy Behav. 2022;129:108634. DOI: https://doi.org/10.1016/j.yebeh.2022.108634 (PMID: 35279436)
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