A estenose de canal lombar é o estreitamento do canal por onde passam as raízes nervosas na parte baixa da coluna. O sintoma característico é dor, peso ou formigamento nas pernas ao caminhar ou ao ficar em pé, que alivia ao sentar ou ao inclinar o tronco para a frente.
A maior parte dos casos é acompanhada clinicamente, e a cirurgia é indicada pela limitação funcional, não pela imagem.
O que é o estreitamento e por que ele acontece
O canal lombar é um túnel formado pelas vértebras. Com o tempo, o disco perde altura, as facetas articulares aumentam de volume e o ligamento amarelo engrossa. O túnel fica mais apertado.
É um processo degenerativo, ligado à idade. Achados degenerativos são muito frequentes em pessoas sem dor nenhuma: a degeneração discal apareceu em 37% dos indivíduos assintomáticos aos 20 anos e em 96% aos 80 [1].
Isso muda a leitura do laudo: o que define o diagnóstico é a soma do quadro clínico com a imagem, e não a imagem sozinha [2].
A claudicação neurogênica, do jeito que o paciente vive
O nome técnico é claudicação neurogênica. O paciente descreve assim:
- caminha uma distância, as pernas ficam pesadas ou formigam, e ele precisa parar;
- senta um pouco e melhora, muitas vezes em poucos minutos;
- anda melhor empurrando o carrinho no supermercado, com o tronco inclinado;
- sobe ladeira melhor do que desce, e pedalar incomoda menos que caminhar.
A explicação é mecânica. Inclinar o tronco para a frente abre o canal e alivia a compressão. Estender a coluna, ao ficar em pé ereto ou andar, fecha o canal.
Como isso se diferencia da claudicação vascular
A dor na perna ao caminhar também pode vir da circulação arterial. Na claudicação vascular, parar de andar já alivia — não é preciso sentar nem inclinar o tronco —, e o exame pode mostrar alteração de pulsos, pele e temperatura. Na neurogênica, a posição importa mais do que o esforço.
As duas condições podem coexistir, e por isso a avaliação inclui exame vascular.
O que o tratamento conservador oferece
Aqui é preciso honestidade. Revisão Cochrane com 21 ensaios e 1.851 participantes concluiu que falta evidência de qualidade moderada ou alta para o tratamento não cirúrgico da estenose lombar com claudicação neurogênica [3].
A mesma revisão encontrou evidência de baixa qualidade de que o exercício traz benefício de curto prazo para dor na perna e função [3].
Isso não torna o tratamento conservador inútil. Torna-o um plano individualizado, com metas de caminhada, condicionamento e ajuste de atividade, reavaliado em prazo definido.
Bloqueio e infiltração: o que esperar
A mesma revisão Cochrane encontrou, em um único ensaio e com evidência de qualidade muito baixa, melhora de dor, função e qualidade de vida com injeção epidural de corticoide até duas semanas [3].
O papel realista do bloqueio é o de uma janela: alívio que permite avançar na reabilitação. Não substitui o tratamento nem a cirurgia quando ela está indicada.
Quando a descompressão entra
A descompressão retira o que está apertando o canal. A indicação vem da limitação de vida mantida apesar do tratamento clínico bem conduzido, e não do grau de estreitamento na imagem [2].
No estudo SPORT, com 289 pacientes randomizados e 365 em coorte observacional, a vantagem do tratamento cirúrgico em dor e função se manteve ao longo de quatro anos [4].
O contraponto precisa aparecer. Revisão Cochrane de cinco ensaios concluiu ter muito pouca confiança para afirmar qual abordagem é melhor, e registrou efeitos adversos em 10% a 24% dos grupos cirúrgicos, sem efeitos adversos relatados nos grupos conservadores [5].
Quando a artrodese entra junto
Nem toda descompressão precisa de artrodese, e a evidência sobre acrescentar a fusão é divergente.
Ensaio randomizado sueco com 247 pacientes não encontrou diferença em incapacidade aos 2 e aos 5 anos entre descompressão isolada e descompressão com artrodese, com ou sem espondilolistese; a internação foi mais longa com artrodese [6].
Ensaio norte-americano com 66 pacientes com espondilolistese degenerativa grau I encontrou ganho um pouco maior em qualidade de vida física com a artrodese, sem diferença na incapacidade aos 2 anos, e reoperação de 14% com artrodese contra 34% na descompressão isolada [7].
Na prática, a artrodese entra por instabilidade, deformidade ou necessidade de descompressão ampla — decisão individual.
Expectativa honesta: o que melhora mais
O sintoma que a descompressão trata diretamente é o da perna: a dor, o peso e o formigamento que limitam a caminhada.
A dor lombar de fundo responde de forma menos previsível. Na maioria das pessoas com dor lombar não é possível identificar uma causa nociceptiva específica [8]. Combinar essa expectativa antes de operar é parte da indicação.
Quando procurar atendimento
Procure avaliação médica quando a distância que você consegue caminhar vem caindo, quando surge dormência persistente no pé ou quando o pé começa a "bater" no chão ao andar.
Síndrome da cauda equina é emergência cirúrgica. Procure um pronto-socorro imediatamente diante de:
- retenção urinária ou incontinência urinária ou fecal;
- anestesia em sela (perda de sensibilidade na região genital, perineal e interna das coxas);
- déficit motor progressivo, especialmente bilateral.
Procure avaliação também em caso de febre associada à dor lombar, dor após trauma, ou dor em paciente com câncer ou osteoporose.
Perguntas frequentes
Estenose de canal lombar piora com o tempo? Não necessariamente em ritmo constante. O que se acompanha é a distância de caminhada e a função, não a medida do canal na imagem.
Preciso operar porque o laudo diz "estenose importante"? Não. O grau descrito na imagem não é, sozinho, indicação cirúrgica [2]. O que pesa é quanto o sintoma limita a sua vida.
Fiz bloqueio e melhorei, mas voltou. Falhou? Não. O efeito documentado do bloqueio é de curto prazo [3]. A volta do sintoma não significa erro de indicação.
Caminhar piora a estenose? Caminhar dentro do que você tolera não danifica a coluna. O plano costuma ser aumentar a distância de forma progressiva, com pausas planejadas.
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
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- Kreiner DS, Shaffer WO, Baisden JL, Gilbert TJ, Summers JT, Toton JF, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of degenerative lumbar spinal stenosis (update). Spine J. 2013;13(7):734-43. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2012.11.059 (PMID: 23830297)
- Ammendolia C, Stuber KJ, Rok E, Rampersaud R, Kennedy CA, Pennick V, et al. Nonoperative treatment for lumbar spinal stenosis with neurogenic claudication. Cochrane Database Syst Rev. 2013;2013(8):CD010712. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD010712 (PMID: 23996271)
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- Zaina F, Tomkins-Lane C, Carragee E, Negrini S. Surgical versus non-surgical treatment for lumbar spinal stenosis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2016(1):CD010264. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD010264.pub2 (PMID: 26824399)
- Försth P, Ólafsson G, Carlsson T, Frost A, Borgström F, Fritzell P, et al. A randomized, controlled trial of fusion surgery for lumbar spinal stenosis. N Engl J Med. 2016;374(15):1413-23. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1513721 (PMID: 27074066)
- Ghogawala Z, Dziura J, Butler WE, Dai F, Terrin N, Magge SN, et al. Laminectomy plus fusion versus laminectomy alone for lumbar spondylolisthesis. N Engl J Med. 2016;374(15):1424-34. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1508788 (PMID: 27074067)
- Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-67. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30480-X (PMID: 29573870)
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