Quase nunca. Na maioria dos adultos a curva aparece pelo desgaste da própria coluna — e não é ela que leva ao consultório: o que leva é dor, limitação para caminhar e cansaço para ficar em pé. A curva descreve a forma; o tratamento se decide pelo sintoma.
Por que o problema do adulto é outro
No adolescente a preocupação é o que a curva pode virar enquanto a coluna cresce; ela é o problema, e não costuma doer — assunto de escoliose do adolescente.
No adulto não há crescimento: há degeneração. Disco que perde altura, facetas que se desgastam, canal que estreita. A curva é consequência disso, e a queixa vem do que a degeneração causa.
Escoliose degenerativa de novo e curva do adolescente que envelheceu
Degenerativa (de novo). Surge na vida adulta, numa coluna que era reta. Numa coorte comunitária de cerca de 12 anos, 29,4% das mulheres sem escoliose no início desenvolveram escoliose lombar degenerativa [3]. Costuma vir com estenose de canal e artrose facetária.
Curva do adolescente que envelheceu. A deformidade já existia e o envelhecimento acrescentou desgaste: no mesmo estudo, 26% das que já tinham escoliose progrediram mais de 5 graus [3].
A antiga costuma ser maior e mais rígida; a degenerativa, menor e mais sintomática. Ambas se tratam pelo sintoma.
O desequilíbrio sagital, e por que a pessoa se inclina para a frente
Visto de lado, o tronco precisa ficar equilibrado sobre a bacia. Quando a lombar perde a lordose — a curva natural para dentro —, ele cai à frente.
É o parâmetro que mais se relaciona com a limitação: num estudo com 752 adultos com deformidade, as medidas de estado de saúde pioraram progressivamente conforme o desvio do tronco aumentava [2].
Na prática: fica-se em pé com esforço, dobrando os joelhos, apoiado no carrinho ou na bengala, e o dia termina em exaustão. Não é falta de postura: é gasto muscular para manter o tronco na vertical.
É diferente da estenose de canal lombar isolada, em que inclinar o tronco para a frente alivia a dor da perna.
O que a imagem mede e o que ela não decide
A radiografia de coluna inteira em pé mede curva e equilíbrio, e é indispensável no planejamento. Mas não decide sozinha: 96% das pessoas assintomáticas aos 80 anos têm degeneração discal [6]. A conduta sai da soma entre exame físico, o que a pessoa consegue fazer e a imagem [1]. O significado de cada termo do laudo está na página de doença degenerativa do disco.
O que o tratamento conservador oferece
O tratamento não cirúrgico é a primeira linha [1]. Não corrige a curva — nenhum conservador corrige — e trabalha o que limita:
- exercício orientado, com foco em resistência de tronco e quadril e em equilíbrio;
- manejo da dor ajustado pelo médico, com atenção ao risco de efeitos adversos nesta faixa etária;
- controle do que piora dor persistente: sono, sedentarismo, peso, tabagismo, sobrecarga no trabalho e estresse [7];
- bloqueio, quando há alvo definido, com efeito de curto prazo.
Boa parte das pessoas com deformidade do adulto é acompanhada assim, por anos, sem cirurgia.
A cirurgia de deformidade, sem retoque
Quando o desequilíbrio é grande e a limitação é diária apesar do conservador, a correção cirúrgica entra na conversa — e precisa ser descrita como é.
É cirurgia grande e a recuperação é longa. Envolve artrodese de vários níveis, muitas vezes osteotomias, e a retomada se conta em meses.
A taxa de eventos adversos graves é relevante. No ensaio ASLS, que comparou cirurgia e tratamento conservador em adultos com escoliose lombar sintomática, a incidência de eventos adversos graves relacionados ao tratamento no grupo operado foi de 22,38 por 100 pessoas-ano nos dois primeiros anos e de 8,17 entre o segundo e o quinto [4] — intervalo em que aparece a maior parte das falhas de implante e pseudartroses [4].
E a dor não zera. Num estudo com 421 operados de deformidade do adulto, dois anos depois 24,3% estavam livres de dor lombar e 37,8% livres de dor na perna [5].
Do outro lado da balança: no ASLS a melhora do grupo operado foi maior que a do conservador aos 2 anos e se manteve aos 5, e mesmo quem teve um evento adverso grave melhorou mais que o grupo não operado [4]. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.
O que pesa na decisão não é o ângulo: é o quanto a limitação atrapalha o dia, o estado geral, as outras doenças, a densidade óssea e — decisivo — o que a pessoa espera. Quem entra esperando ficar sem dor tende a sair insatisfeito; quem espera ficar em pé por mais tempo avalia de outro modo.
Quando procurar atendimento
Dor lombar e cansaço para ficar em pé pedem avaliação eletiva, sem pressa.
Procure avaliação em semanas se houver piora progressiva da distância que você caminha, perda de força na perna, inclinação do tronco que aumenta visivelmente ou dor que acorda você à noite.
Procure pronto-socorro imediatamente diante de:
- retenção ou perda de controle da urina ou das fezes;
- perda de sensibilidade no períneo e na parte interna das coxas ("anestesia em sela");
- perda de força progressiva nas duas pernas.
Sugerem síndrome da cauda equina — emergência.
Perguntas frequentes
Minha curva vai continuar aumentando? Pode, e o ritmo varia. Em 12 anos, cerca de um quarto das curvas pré-existentes progrediu mais de 5 graus [3]. Progressão radiográfica, sozinha, não indica cirurgia.
Dá para operar só o nível que dói? Às vezes. Quando o problema dominante é a compressão de uma raiz num nível, discute-se descompressão limitada — inclusive com espondilolistese associada. O limite é o desequilíbrio: se for grande, a cirurgia menor não sustenta o resultado.
Sou muito idoso para operar? Idade sozinha não decide. Pesam o estado geral, as outras doenças, a densidade óssea e a capacidade de atravessar uma recuperação longa.
Leia também
- Estenose de canal lombar: por que dói ao caminhar
- Espondilolistese: o escorregamento de vértebra explicado
- Escoliose do adolescente
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Referências
- Diebo BG, Shah NV, Boachie-Adjei O, Zhu F, Rothenfluh DA, Paulino CB, et al. Adult spinal deformity. Lancet. 2019;394(10193):160-72. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)31125-0 (PMID: 31305254)
- Glassman SD, Bridwell K, Dimar JR, Horton W, Berven S, Schwab F. The impact of positive sagittal balance in adult spinal deformity. Spine (Phila Pa 1976). 2005;30(18):2024-9. DOI: https://doi.org/10.1097/01.brs.0000179086.30449.96 (PMID: 16166889)
- Jimbo S, Kobayashi T, Aono K, Atsuta Y, Matsuno T. Epidemiology of degenerative lumbar scoliosis: a community-based cohort study. Spine (Phila Pa 1976). 2012;37(20):1763-70. DOI: https://doi.org/10.1097/BRS.0b013e3182575eaa (PMID: 22487710)
- Smith JS, Kelly MP, Yanik EL, Baldus CR, Buell TJ, Lurie JD, et al. Operative versus nonoperative treatment for adult symptomatic lumbar scoliosis at 5-year follow-up: durability of outcomes and impact of treatment-related serious adverse events. J Neurosurg Spine. 2021;35(1):67-79. DOI: https://doi.org/10.3171/2020.9.SPINE201472 (PMID: 33930859)
- Scheer JK, Smith JS, Clark AJ, Lafage V, Kim HJ, Rolston JD, et al. Comprehensive study of back and leg pain improvements after adult spinal deformity surgery: analysis of 421 patients with 2-year follow-up and of the impact of the surgery on treatment satisfaction. J Neurosurg Spine. 2015;22(5):540-53. DOI: https://doi.org/10.3171/2014.10.SPINE14475 (PMID: 25700238)
- Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, Bresnahan BW, Chen LE, Deyo RA, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-6. DOI: https://doi.org/10.3174/ajnr.A4173 (PMID: 25430861)
- Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-67. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30480-X (PMID: 29573870)
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