A rinite alérgica é uma inflamação da mucosa do nariz desencadeada por alérgenos inalados — ácaro, fungo, pelo de animal, pólen. Produz espirros em série, coriza clara, coceira no nariz e nos olhos e obstrução, em crises que se repetem ou em sintoma que persiste por meses. Não é infecção e não responde a antibiótico.

Por que não é "um resfriado que não passa"

O resfriado é viral, dura cerca de uma semana e costuma vir com dor de garganta e mal-estar. A rinite alérgica se repete, tem gatilho identificável, e a coceira é característica — sintoma que a infecção viral raramente produz.

Quem tem rinite pode passar o ano com o nariz obstruído e atribuir isso a "resfriados seguidos". A pista está no padrão: piora ao deitar, ao acordar, ao limpar a casa, ao lidar com um animal.

O consenso ICAR 2023 trata a rinite alérgica como doença crônica da via aérea superior, com impacto sobre sono, trabalho e estudo [1].

Rinite alérgica e rinite não alérgica não são a mesma coisa

Nem todo nariz que espirra é alérgico. Há um grupo grande de rinites não alérgicas, disparadas por irritantes químicos, cheiros fortes e mudança de temperatura ou umidade, sem participação de IgE [4].

A revisão de 2024 sobre rinopatia não alérgica registra que a forma antes chamada de rinite vasomotora responde por cerca de 80% desses casos, e que o mecanismo é neurogênico, e não imunológico [4]. Existe ainda a forma mista, com os dois mecanismos no mesmo paciente [4].

A distinção importa porque muda o tratamento: teste alérgico negativo não significa que o sintoma seja imaginado.

Como o diagnóstico é feito

A consulta parte da história: o que dispara, em que época do ano, há quanto tempo, o que já foi usado e o que funcionou. O exame avalia mucosa, cornetos e presença de secreção ou de pólipo.

Quando é preciso ver o que a rinoscopia anterior não alcança — região posterior, cavum, pólipos pequenos —, a nasofibroscopia é feita em consultório.

Quando o teste alérgico muda a conduta

O teste cutâneo ou a dosagem de IgE específica não é pré-requisito para iniciar tratamento sintomático. Muda a conduta em duas situações: dirigir o controle ambiental a um alérgeno identificado, e avaliar indicação de imunoterapia, que exige saber a qual alérgeno o paciente é sensibilizado [1,2].

Resultado positivo isolado, sem sintoma correspondente, é sensibilização — não é diagnóstico.

Controle ambiental

Medidas isoladas costumam ter efeito modesto, e o ICAR as posiciona como parte do conjunto, não como substituto do tratamento [1]. Concentram-se no quarto de dormir, onde a exposição é mais prolongada, e no alérgeno que a avaliação identificou.

As classes de tratamento

O ICAR 2023 traz recomendações fortes a favor de anti-histamínicos de geração mais nova (em lugar dos de primeira geração), corticoide intranasal, solução salina nasal e a combinação de corticoide com anti-histamínico tópico quando a monoterapia não basta [2].

O mesmo documento recomenda contra o descongestionante oral isolado e contra corticoide oral de rotina [2].

As diretrizes ARIA organizam o tratamento em degraus: sobe-se ou desce-se conforme o controle dos sintomas, e não segundo um esquema fixo [3]. Escolha, via e tempo de uso são decisões de consulta.

Imunoterapia: o que é, para quem e por quanto tempo

A imunoterapia com alérgeno é a administração controlada e progressiva do próprio alérgeno, por via subcutânea ou sublingual, para modificar a resposta imunológica — e não apenas aliviar o sintoma do dia [5].

O ICAR dá recomendação forte à imunoterapia subcutânea e ao comprimido sublingual em pacientes selecionados [2]: sensibilização comprovada e correspondência clara entre alérgeno e sintoma.

Sobre duração, a literatura consolidada trabalha com pelo menos três anos de tratamento e descreve benefício que se mantém por anos após a interrupção [5]. Em seguimento de dez anos, o benefício sustentado apareceu entre os que haviam completado três anos ou mais [6].

Não é tratamento de alívio rápido nem se aplica a todo paciente com rinite. É decisão de médio prazo, e a adesão é determinante [5].

Rinite não tratada mantém o nariz entupido depois da cirurgia

Este é o ponto que mais frustra expectativa em quem opera o nariz. A cirurgia corrige estrutura — septo, cornetos. Ela não trata alergia.

Se a rinite seguir sem controle, a mucosa continua inflamada e a sensação de obstrução retorna, mesmo com o septo bem posicionado. Metanálise de pacientes com desvio de septo e rinite alérgica encontrou ganho sintomático com a cirurgia, o que não dispensa o manejo clínico da alergia [7].

Por isso o tratamento da rinite entra antes da cirurgia e continua depois dela. A indicação está detalhada na página sobre desvio de septo e septoplastia.

Quando procurar atendimento

  • Obstrução nasal, coriza ou espirros que persistem por semanas, ou que retornam com regularidade
  • Sintoma nasal que atrapalha o sono, o rendimento no trabalho ou o desempenho escolar
  • Obstrução sempre da mesma narina, secreção com sangue ou perda persistente do olfato — foge do padrão da rinite e exige avaliação
  • Criança com respiração pela boca, ronco ou sono agitado
  • Chiado no peito, tosse noturna ou falta de ar associados ao quadro nasal — a via aérea inferior precisa ser avaliada junto
  • Uso continuado de descongestionante nasal em spray além de poucos dias: procure avaliação em vez de manter o uso

Perguntas frequentes

Rinite alérgica tem cura? O termo usado na literatura é controle, não cura. A imunoterapia é a abordagem que atua sobre o mecanismo da doença, e não apenas sobre o sintoma do dia [5].

Corticoide nasal pode ser usado por muito tempo? É uma das recomendações fortes do consenso para rinite alérgica [2]. Duração, reavaliação e ajustes são definidos em consulta, com acompanhamento.

Preciso fazer teste de alergia antes de começar o tratamento? Não necessariamente. O teste é decisivo quando se quer dirigir o controle ambiental a um alérgeno específico ou avaliar indicação de imunoterapia [1,2].

Mudar de casa resolve? Pode reduzir a exposição a um alérgeno, mas raramente resolve sozinho: a sensibilização acompanha a pessoa.


Leia também: Desvio de septo e septoplastia e Sinusite aguda e crônica

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Wise SK, Damask C, Roland LT, Ebert C, Levy JM, Lin S, et al. International consensus statement on allergy and rhinology: Allergic rhinitis - 2023. Int Forum Allergy Rhinol. 2023;13(4):293-859. DOI: https://doi.org/10.1002/alr.23090 (PMID: 36878860)

  2. Wise SK, Damask C, Greenhawt M, Oppenheimer J, Roland LT, Shaker MS, et al. A Synopsis of Guidance for Allergic Rhinitis Diagnosis and Management From ICAR 2023. J Allergy Clin Immunol Pract. 2023;11(3):773-96. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jaip.2023.01.007 (PMID: 36894277)

  3. Bousquet J, Schünemann HJ, Togias A, Bachert C, Erhola M, Hellings PW, et al. Next-generation Allergic Rhinitis and Its Impact on Asthma (ARIA) guidelines for allergic rhinitis based on Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation (GRADE) and real-world evidence. J Allergy Clin Immunol. 2020;145(1):70-80.e3. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jaci.2019.06.049 (PMID: 31627910)

  4. Baroody FM, Gevaert P, Smith PK, Ziaie N, Bernstein JA. Nonallergic Rhinopathy: A Comprehensive Review of Classification, Diagnosis, and Treatment. J Allergy Clin Immunol Pract. 2024;12(6):1436-47. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jaip.2024.03.009 (PMID: 38467330)

  5. Lao-Araya M, Sompornrattanaphan M, Kanjanawasee D, Tantilipikorn P. Allergen immunotherapy for respiratory allergies in clinical practice: A comprehensive review. Asian Pac J Allergy Immunol. 2022;40(4):283-94. DOI: https://doi.org/10.12932/AP-260722-1418 (PMID: 36681655)

  6. Rodriguez-Plata E, Callero Viera A, Ruiz-Garcia M, Gomez-Cardenosa A, Nieto E, García-Robaina JC. House dust mite subcutaneous immunotherapy has sustained long-term effectiveness on allergic rhinitis and asthma: A 10-year follow-up. Immun Inflamm Dis. 2023;11(10):e1004. DOI: https://doi.org/10.1002/iid3.1004 (PMID: 37904678)

  7. Wu Y, Yu T, Zhang Z, Wang X, Gao S. The benefits of septoplasty for patients with deviated nasal septum and allergic rhinitis: a meta-analysis. Sci Rep. 2024;14(1):28855. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-024-80377-3 (PMID: 39572690)


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