A neuralgia do trigêmeo é uma dor facial de um lado só, em choque elétrico, que dura segundos e é disparada por gestos banais — falar, mastigar, escovar os dentes, o vento no rosto [1,3]. É confundida com dor de dente com frequência, e muitas pessoas chegam ao neurologista depois de tratamentos dentários que não resolveram. O diagnóstico é clínico, e a ressonância responde a uma pergunta específica.

Como essa dor se comporta

O trigêmeo é o nervo que leva a sensibilidade do rosto. Quando ele está envolvido, a dor é reconhecível: unilateral, breve, muito intensa, com início e fim abruptos, no território de um ou mais ramos [1,3].

O traço que mais ajuda no diagnóstico é o gatilho: a dor é evocada por estímulos leves na face ou na boca [3]. Por isso a pessoa evita mastigar de um lado, deixa de escovar aquela região e às vezes para de falar durante as crises. Entre os choques pode haver uma dor contínua de fundo, menos intensa [3].

Por que tantos tratamentos dentários acontecem antes

Porque a dor se projeta no território dos dentes. Em uma série de 104 pacientes com neuralgia do trigêmeo atendidos em um serviço de neurocirurgia, 88 haviam sido inicialmente tratados como dor dentária, e 55 passaram por extração; em 92,7% dos casos a extração não trouxe melhora da dor [4].

Outro levantamento, com 117 pacientes, encontrou o mesmo padrão: 65,8% procuraram um dentista, 41,8% passaram por algum procedimento odontológico e 19,6% fizeram tratamento de canal, com média de 1,6 dente extraído por pessoa [5].

Dor facial em choque, de segundos, disparada por toque leve, não é um padrão de dor de origem dentária. Se um procedimento odontológico não melhorou a dor — ou piorou —, a hipótese neurológica precisa ser avaliada antes do procedimento seguinte.

Como o diagnóstico é feito

O diagnóstico é clínico, baseado na descrição da dor e no exame neurológico [1,3,8]. A classificação separa três situações: clássica, com contato de um vaso capaz de alterar a morfologia da raiz; secundária, quando há uma doença por trás — esclerose múltipla, tumor de ângulo pontocerebelar; e idiopática, quando nenhuma das duas é demonstrada [1,2].

A ressonância magnética é recomendada, com sequências de alta resolução dedicadas ao trigêmeo [1,2,8]. Ela responde a duas perguntas: existe causa secundária, e existe conflito neurovascular. A primeira é a mais importante — nenhuma característica clínica exclui uma causa secundária, e por isso a imagem não é opcional [2].

Um esclarecimento que evita mal-entendido no laudo: a demonstração de contato entre vaso e nervo não confirma o diagnóstico [1,2]. Esse achado serve para decidir se e quando a cirurgia faz sentido. Sobre causa secundária, veja esclerose múltipla.

Tratamento clínico

O tratamento de primeira linha é medicamentoso e de longo prazo. As diretrizes indicam os anticonvulsivantes bloqueadores de canais de sódio como escolha inicial [1,2,3]. Como terapia associada ou alternativa, outras classes de anticonvulsivantes, um relaxante muscular de ação central e a toxina botulínica tipo A podem ser consideradas [2,3].

A escolha e os ajustes são de consulta, com atenção à tolerância — parte importante das trocas acontece por efeitos adversos, não por falta de efeito [2]. Ajuste de expectativa: o objetivo do tratamento clínico é controlar a dor, e a resposta pode reduzir-se ao longo dos anos [1].

Quando o tratamento clínico não é suficiente

A cirurgia deve ser oferecida quando a dor não é controlada de forma satisfatória ou quando o tratamento medicamentoso é mal tolerado [2]. As opções se organizam por indicação:

Descompressão microvascular. É a cirurgia de primeira linha na neuralgia clássica, com conflito neurovascular demonstrado [2,3]. Comparada à radiocirurgia, associa-se a maior alívio da dor e menor recorrência, com mais complicações pós-operatórias além da dormência facial [6].

Radiocirurgia. Procedimento sem abertura cirúrgica. Em comparações diretas, apresenta menos complicações pós-operatórias, à custa de menor alívio completo e mais recorrência [6].

Procedimentos percutâneos (neuroablativos). São a escolha preferencial quando a ressonância não demonstra contato neurovascular, e uma alternativa para quem não tem condição clínica para a descompressão microvascular ou não deseja assumir o risco cirúrgico [2,3].

Todas produzem algum grau de alteração da sensibilidade da face, e nenhuma elimina a possibilidade de recorrência [2,6]. A indicação é individual e discutida com a neurocirurgia funcional.

Outras dores neuropáticas

A dor neuropática não se limita ao rosto: aparece na neuropatia diabética, após herpes-zóster, em lesões de nervo periférico e depois de algumas cirurgias. O tratamento dessas dores segue outra lógica, com antidepressivos tricíclicos, inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina e ligantes da subunidade α2-δ do canal de cálcio como primeira linha [7]. Os benefícios são modestos e a resposta insuficiente é frequente [7]. Veja neuropatias periféricas.

Quando procurar atendimento

Procure avaliação sem esperar a rotina se a dor facial vier acompanhada de dormência persistente do rosto, fraqueza da musculatura da mastigação, alteração da audição ou qualquer sinal neurológico associado. Esses achados apontam para causa secundária e mudam a investigação [1,2].

Procure avaliação de urgência se a dor se tornar contínua a ponto de impedir comer e beber: desidratação e perda de peso são complicações reais das crises intensas [2].

Diante de dor facial de início súbito com alteração da fala, do rosto ou da força de um lado do corpo, acione o SAMU (192). Veja AVC.

Perguntas frequentes

Já extraí dentes e a dor continuou. Foi erro? É uma sequência frequente e descrita na literatura [4,5], e indica que a origem da dor não estava no dente. O passo seguinte é a avaliação neurológica, não outro procedimento odontológico.

Preciso fazer ressonância mesmo com o diagnóstico já dado na consulta? A recomendação é fazer, porque nenhum dado clínico exclui uma causa secundária [2]. O exame também informa a decisão cirúrgica futura.

A cirurgia resolve de vez? Nenhuma das técnicas elimina a possibilidade de recorrência, e todas envolvem algum grau de alteração da sensibilidade facial [2,6]. A escolha entre elas depende do achado da ressonância, da idade e das condições clínicas.

Isso tem relação com enxaqueca? São condições diferentes, com tratamentos diferentes. Sobre dor de cabeça recorrente, veja enxaqueca e cefaleias.


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Bendtsen L, Zakrzewska JM, Heinskou TB, Hodaie M, Leal PRL, Nurmikko T, et al. Advances in diagnosis, classification, pathophysiology, and management of trigeminal neuralgia. Lancet Neurol. 2020;19(9):784-796. DOI: https://doi.org/10.1016/S1474-4422(20)30233-7 (PMID: 32822636)
  2. Bendtsen L, Zakrzewska JM, Abbott J, Braschinsky M, Di Stefano G, Donnet A, et al. European Academy of Neurology guideline on trigeminal neuralgia. Eur J Neurol. 2019;26(6):831-849. DOI: https://doi.org/10.1111/ene.13950 (PMID: 30860637)
  3. Lambru G, Zakrzewska J, Matharu M. Trigeminal neuralgia: a practical guide. Pract Neurol. 2021;21(5):392-402. DOI: https://doi.org/10.1136/practneurol-2020-002782 (PMID: 34108244)
  4. Hassan AF, Al Sheakh A, Badran SA, Mahmood AA, Alhamdani FY. Misdiagnosis-Driven Dental Extractions in Patients with Trigeminal Neuralgia: A Retrospective Study. J Multidiscip Healthc. 2025;18:1999-2005. DOI: https://doi.org/10.2147/JMDH.S518948 (PMID: 40230490)
  5. Tripathi M, Sadashiva N, Gupta A, Jani P, Pulickal SJ, Deora H, et al. Please spare my teeth! Dental procedures and trigeminal neuralgia. Surg Neurol Int. 2020;11:455. DOI: https://doi.org/10.25259/SNI_729_2020 (PMID: 33408940)
  6. Alizadeh Y, Hayak H, Khoshnevisan A. Microvascular Decompression Versus Gamma Knife Surgery in Patients with Drug-Resistant Trigeminal Neuralgia: A Systematic Review and Meta-Analysis. World Neurosurg. 2022;167:67-73. DOI: https://doi.org/10.1016/j.wneu.2022.08.020 (PMID: 35970291)
  7. Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, McNicol E, Baron R, Dworkin RH, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-173. DOI: https://doi.org/10.1016/S1474-4422(14)70251-0 (PMID: 25575710)
  8. Latorre G, González-García N, García-Ull J, González-Oria C, Porta-Etessam J, Molina FJ, et al. Diagnosis and treatment of trigeminal neuralgia: Consensus statement from the Spanish Society of Neurology's Headache Study Group. Neurologia (Engl Ed). 2023;38 Suppl 1:S37-S52. DOI: https://doi.org/10.1016/j.nrleng.2023.04.005 (PMID: 37116695)

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