Você perde o movimento daquele segmento, não o da coluna. A lombar tem cinco níveis móveis e a cervical, seis. Travar um ou dois reduz a amplitude total em parte, e o restante compensa. Travar muitos níveis é outra conversa — e é aí que a rigidez aparece de verdade.

O que a artrodese faz

Artrodese é a fusão de duas vértebras em um bloco só. Retira-se o disco doente, coloca-se enxerto ósseo e, na maior parte das técnicas, um implante que segura as vértebras enquanto o osso cresce.

O que cura o paciente não é o parafuso: é o osso que se forma. O implante é o andaime que sustenta o segmento durante os meses da consolidação.

A artrodese serve para estabilizar. Quando há compressão de nervo, a descompressão é feita no mesmo ato.

"Vou ficar duro?" — a resposta honesta

A perda de mobilidade do segmento operado é real, permanente e é o objetivo do procedimento, não um efeito colateral dele.

Na prática, o que a maioria das pessoas percebe depois de uma fusão de um ou dois níveis não é rigidez para os movimentos do dia a dia, e sim perda nos extremos: dobrar-se completamente, girar o tronco ao máximo, olhar bem para cima. Quanto mais níveis fundidos, maior a perda percebida — e quanto mais rígida já estava a coluna antes, menor a diferença.

A artrodese também não impede a degeneração dos outros níveis nem elimina toda a dor lombar.

Quando a artrodese é indicada de verdade

As indicações consistentes são três: instabilidade, deformidade que precisa de correção de alinhamento e escorregamento vertebral sintomático que não responde ao tratamento conservador.

E aqui está o ponto mais mal compreendido: dor lombar isolada, sem instabilidade, sem deformidade e sem compressão, não é indicação de artrodese. Na grande maioria das pessoas com dor lombar não é possível identificar uma fonte específica da dor [1] — e um bloco de osso fundido não resolve uma dor cuja origem não foi identificada. Para esse quadro, as diretrizes posicionam tratamento não invasivo em primeiro lugar: exercício, reabilitação multidisciplinar e abordagem dos fatores que sustentam a dor [2]. As revisões que encontram benefício da fusão nesse cenário se referem a pacientes selecionados, com dor grave e refratária a meses de tratamento conservador, e a literatura é heterogênea [3].

Mesmo dentro das indicações, "fundir" não é automático. Nos estudos randomizados de espondilolistese degenerativa, acrescentar artrodese à descompressão produziu diferença desprezível em capacidade funcional em dois anos, com dor lombar discretamente melhor no grupo sem fusão [4]. Já na espondilolistese ístmica, um ensaio randomizado encontrou resultado melhor com a fusão em dois anos e taxa de reoperação muito mais baixa — 13% contra 47% na descompressão isolada [5].

Duas doenças com o mesmo nome e respostas opostas — por isso o tipo importa mais que o grau, como descrito na página de espondilolistese.

Doença do segmento adjacente

Fundido um segmento, os vizinhos passam a se mover mais e a receber mais carga. Com o tempo, uma parte deles degenera — e, em parte dos casos, com sintoma.

A frequência descrita para a doença do segmento adjacente sintomática após artrodese lombar varia de 5% a 30% nos estudos reunidos, com idade avançada e obesidade entre os fatores de risco [6]. Parte dessa degeneração aconteceria de qualquer forma, pelo envelhecimento do disco. Separar o que é consequência da cirurgia do que é história natural é difícil, e a literatura não resolve isso.

Artroplastia de disco cervical

A artroplastia substitui o disco por uma prótese que preserva movimento no nível operado. A proposta é justamente reduzir a sobrecarga dos níveis vizinhos.

Comparada à artrodese cervical em seguimento de dez anos, apresentou menos reoperações e menos eventos adversos. Nas escalas de dor e incapacidade a diferença foi estatisticamente favorável, mas não atingiu o limiar de relevância clínica, e não houve diferença no desfecho neurológico [7]. Revisões de ensaios com sete anos ou mais apontam a mesma direção: menos síndrome do segmento adjacente e menos reoperação com a prótese [8].

A artroplastia tem candidatos específicos: doença de um ou dois níveis, com movimento preservado no segmento e sem instabilidade, deformidade, artrose facetária importante ou osteoporose relevante. Fora desse perfil, a artrodese continua sendo a operação indicada. E no segmento lombar a evidência é bem menos consolidada do que no cervical.

Recuperação: o que esperar

A dor da compressão nervosa tende a ceder cedo; o desconforto do procedimento dura mais. A consolidação óssea leva meses, e por isso a liberação para carga, esforço e esporte é escalonada — o critério é a consolidação, não o calendário.

Tabagismo prejudica a formação do osso. Parar de fumar antes da cirurgia é uma das poucas coisas que estão nas mãos do paciente e mudam o resultado.


Quando procurar atendimento

Procure avaliação médica se a dor irradiada persiste apesar do tratamento conservador, se há perda de força ou se a limitação para caminhar aumenta.

Procure atendimento no pós-operatório diante de febre, secreção pela incisão, dor que muda de padrão e cresce, ou fraqueza nova.

Síndrome da cauda equina é emergência cirúrgica. Procure um pronto-socorro imediatamente diante de:

  • retenção urinária ou incontinência urinária ou fecal;
  • anestesia em sela (perda de sensibilidade na região genital, perineal e interna das coxas);
  • déficit motor progressivo, especialmente bilateral.

Perguntas frequentes

Vou conseguir amarrar o sapato depois da artrodese lombar? Na fusão de um ou dois níveis, os movimentos comuns costumam ser mantidos com adaptação. A perda se concentra nos extremos de flexão e rotação.

A prótese de disco dura para sempre? Não existe informação de durabilidade indefinida. Os seguimentos publicados chegam a dez anos, com menos reoperações que a artrodese nesse período [7].

Vou disparar o detector de metal do aeroporto? Pode acontecer. Vale levar o relatório cirúrgico nas primeiras viagens.

Se eu não operar, a coluna vai travar sozinha? Não é assim que a degeneração se comporta. A decisão de operar se apoia em sintoma, limitação e critério de instabilidade — não no receio de uma piora inevitável.


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Referências

  1. Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-67. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30480-X (PMID: 29573870)
  2. Qaseem A, Wilt TJ, McLean RM, Forciea MA. Noninvasive treatments for acute, subacute, and chronic low back pain: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017;166(7):514-30. DOI: https://doi.org/10.7326/M16-2367 (PMID: 28192789)
  3. Noshchenko A, Hoffecker L, Lindley EM, Burger EL, Cain CMJ, Patel VV. Long-term treatment effects of lumbar arthrodeses in degenerative disk disease: a systematic review with meta-analysis. J Spinal Disord Tech. 2015;28(9):E493-521. DOI: https://doi.org/10.1097/BSD.0000000000000124 (PMID: 24901878)
  4. Kaiser R, Kantorová L, Langaufová A, Slezáková S, Tučková D, Klugar M, et al. Decompression alone versus decompression with instrumented fusion in the treatment of lumbar degenerative spondylolisthesis: a systematic review and meta-analysis of randomised trials. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2023;94(8):657-66. DOI: https://doi.org/10.1136/jnnp-2022-330158 (PMID: 36849239)
  5. Azizpour K, Schutte P, Arts MP, Pondaag W, Bouma GJ, Coppes M, et al. Decompression alone versus decompression and instrumented fusion for the treatment of isthmic spondylolisthesis: a randomized controlled trial. J Neurosurg Spine. 2021;35(6):687-97. DOI: https://doi.org/10.3171/2021.1.SPINE201958 (PMID: 34416736)
  6. Cannizzaro D, Anania CD, Safa A, Zaed I, Morenghi M, Riva M, et al. Lumbar adjacent segment degeneration after spinal fusion surgery: a systematic review and meta-analysis. J Neurosurg Sci. 2023;67(6):740-9. DOI: https://doi.org/10.23736/S0390-5616.22.05891-X (PMID: 36345970)
  7. Quinto ES, Paisner ND, Huish EG, Senegor M. Ten-year outcomes of cervical disc arthroplasty versus anterior cervical discectomy and fusion: a systematic review with meta-analysis. Spine (Phila Pa 1976). 2024;49(7):463-9. DOI: https://doi.org/10.1097/BRS.0000000000004887 (PMID: 38018778)
  8. Núñez JH, Escudero B, Omiste I, Martínez-Peñas J, Surroca M, Alonzo-González F, et al. Outcomes of cervical arthroplasty versus anterior cervical arthrodesis: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials with a minimum follow-up of 7-year. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2023;33(5):1875-84. DOI: https://doi.org/10.1007/s00590-022-03365-1 (PMID: 35986813)

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