Depende do material. A hialuronidase é uma enzima que degrada ácido hialurônico — e só ele. Bioestimuladores, toxina botulínica e materiais permanentes não são revertidos por ela, e não existe equivalente para esses casos.

Essa assimetria é um critério de escolha que costuma ser subestimado na hora de decidir. O que o preenchimento repõe e quanto tempo dura estão em Preenchimento com ácido hialurônico: o que ele repõe e o que ele não corrige; aqui o assunto é a reversão.

Por que a reversibilidade é um critério de escolha

Ao comparar materiais, a conversa costuma girar em torno da duração. A pergunta menos feita é a inversa: o que acontece se o resultado não for o desejado, ou se surgir uma complicação.

Para o ácido hialurônico existe uma via de reversão descrita na literatura. Para os demais materiais injetáveis, a conduta é outra: existe, por exemplo, um consenso internacional dedicado exclusivamente ao manejo de complicação intravascular por hidroxiapatita de cálcio, com protocolo próprio, precisamente porque a enzima não resolve aquele quadro [1].

Isso não torna um material melhor que o outro: cada um tem indicação distinta. Torna a reversibilidade uma variável que merece entrar na conversa da avaliação, ao lado da duração.

Em que situações a hialuronidase é usada

A literatura descreve três contextos distintos, com urgências muito diferentes.

Resultado indesejado. Excesso, irregularidade ou posicionamento que incomoda. Situação eletiva, decidida em avaliação e sem pressa.

Nódulo e reação tardia. Um consenso sobre reações tardias recomenda a enzima para reações não inflamatórias na ausência de infecção ativa, e conduta expectante ou corticoide para reações inflamatórias. O mesmo documento é explícito ao dizer que a enzima não é primeira linha em infecção, que pede drenagem, cultura e antibiótico, e insiste em avaliação individualizada [2].

Urgência vascular. É a situação em que a enzima entra como parte do manejo de emergência, e o fator determinante passa a ser o tempo até o atendimento.

Comprimir os três em "se não gostar, dissolve" apaga justamente a diferença que importa.

É um procedimento médico, com riscos próprios

Aplicar a enzima não é desfazer o procedimento anterior: é um novo procedimento, com indicação e riscos próprios.

O risco mais documentado é a reação alérgica. Uma revisão que reuniu 37 artigos e 106 pacientes com alergia à hialuronidase identificou histórico de alergia a outras substâncias e sensibilização prévia por picada de inseto ou veneno de vespa entre os fatores associados, e registrou que boa parte dos casos ocorreu já na segunda exposição. O tratamento com corticoide, com ou sem anti-histamínico, levou à reversão rápida e predominantemente completa dos sintomas [3].

Uma diretriz sobre uso seguro da enzima discute diferenças entre formulações, eventos adversos, a relação com alergia a picada de abelha e vespa e o debate sobre teste cutâneo prévio [4] — decisões do médico que vai aplicar.

Vale registrar um efeito esperado e frequentemente esquecido: a enzima não distingue o produto injetado do ácido hialurônico do próprio tecido na área alcançada.

Expectativa realista: o que a evidência mostra

Aqui a literatura é mais modesta do que a divulgação sugere.

Uma revisão de escopo sobre o uso da enzima no manejo de complicações estéticas encontrou apenas cinco ensaios randomizados, com 53 participantes no total, todos em pele de antebraço, braço ou dorso, e sem reações adversas maiores relatadas [5].

A mesma revisão registra o que não existe: nenhum estudo desse tipo sobre reversão na face, sobre correção de excesso, sobre nódulo inflamatório ou sobre manejo de isquemia tecidual [5].

Ou seja: a reversão é praticada e aceita, mas a base experimental que a sustenta é pequena e foi produzida fora da face. Resultado e grau de reversão não são previsíveis com precisão — e quem promete previsibilidade nesse ponto vai além do dado.

Urgência vascular: o que se sabe e o que não se sabe

Nos casos com comprometimento visual, a evidência é ainda mais limitada, e é honesto dizê-lo.

Em modelo experimental animal, a enzima aplicada fora do vaso não conseguiu atravessar a parede arterial para alcançar o material dentro do vaso dentro da janela estudada, o que levantou dúvida sobre uma das condutas propostas para esse cenário [6].

Em uma série com quatro pacientes tratados por via endovascular, houve alívio da obstrução em três, mas melhora visual apenas discreta em um, nenhuma nos demais, e complicações neurológicas durante ou após o procedimento [7].

O que isso muda na prática: a conduta que mais pesa continua sendo o tempo até o atendimento, e não a expectativa de um antídoto confiável depois que o quadro se instala.

Quando procurar atendimento

Procure a equipe que realizou o procedimento imediatamente se aparecer:

  • dor desproporcional, ou que aumenta em vez de diminuir
  • palidez da pele na área tratada ou próxima
  • alteração de cor: pele arroxeada, acinzentada ou com desenho rendilhado
  • alteração visual de qualquer tipo
  • sinais infecciosos: vermelhidão que se expande, calor, secreção, febre
  • nódulo novo, endurecimento ou inchaço que apareça semanas ou meses depois

Os cinco primeiros são de urgência. Se a equipe não estiver acessível, procure serviço de urgência informando qual material foi aplicado, em qual região e quando — essa informação altera a conduta.

Perguntas frequentes

Dissolver desfaz tudo e volta ao que era antes? Não é o que a literatura permite afirmar. Os poucos ensaios existentes foram feitos fora da face e não sustentam previsão de reversão completa [5].

Posso pedir para dissolver só porque não gostei? Resultado indesejado é uma das indicações descritas, mas a decisão é de avaliação médica, e a enzima tem riscos próprios — inclusive alérgicos [3].

Se eu já tomei hialuronidase uma vez, posso tomar de novo? Boa parte dos casos de alergia descritos ocorreu na segunda exposição [3]. Informe sempre que já recebeu a enzima antes.

Bioestimulador e toxina também podem ser dissolvidos? Não. A enzima age sobre ácido hialurônico. Sobre bioestimuladores, veja Quantas sessões de bioestimulador são necessárias.


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. van Loghem J, Funt D, Pavicic T, Goldie K, Yutskovskaya Y, Fabi S, et al. Managing intravascular complications following treatment with calcium hydroxylapatite: an expert consensus. J Cosmet Dermatol. 2020;19(11):2845-2858. DOI: https://doi.org/10.1111/jocd.13353 (PMID: 32185876)

  2. Baranska-Rybak W, Lajo-Plaza JV, Walker L, Alizadeh N. Late-onset reactions after hyaluronic acid dermal fillers: a consensus recommendation on etiology, prevention and management. Dermatol Ther (Heidelb). 2024;14(7):1767-1785. DOI: https://doi.org/10.1007/s13555-024-01202-3 (PMID: 38907876)

  3. Guliyeva G, Huayllani MT, Kraft C, Lehrman C, Kraft MT. Allergic complications of hyaluronidase injection: risk factors, treatment strategies, and recommendations for management. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(3):413-439. DOI: https://doi.org/10.1007/s00266-023-03348-5 (PMID: 37145319)

  4. Murray G, Convery C, Walker L, Davies E. Guideline for the safe use of hyaluronidase in aesthetic medicine, including modified high-dose protocol. J Clin Aesthet Dermatol. 2021;14(8):E69-E75. (PMID: 34840662)

  5. Borzabadi-Farahani A, Mosahebi A, Zargaran D. A scoping review of hyaluronidase use in managing the complications of aesthetic interventions. Aesthetic Plast Surg. 2022;48(6):1193-1209. DOI: https://doi.org/10.1007/s00266-022-03207-9 (PMID: 36536092)

  6. Zhang L, Feng X, Shi H, Wu WTL, Wu S. Blindness after facial filler injections: the role of extravascular hyaluronidase on intravascular hyaluronic acid embolism in the rabbit experimental model. Aesthet Surg J. 2020;40(3):319-326. DOI: https://doi.org/10.1093/asj/sjz280 (PMID: 31630161)

  7. Zhang L, Luo Z, Li J, Liu Z, Xu H, Wu M, et al. Endovascular hyaluronidase application through superselective angiography to rescue blindness caused by hyaluronic acid injection. Aesthet Surg J. 2021;41(3):344-355. DOI: https://doi.org/10.1093/asj/sjaa036 (PMID: 32401308)


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