A conduta padrão é adiar o que for eletivo até depois da gestação e, quando for o caso, da amamentação. Não porque exista prova de dano — na maior parte dos procedimentos, não existe —, mas porque não existe estudo.

Este é um tema com pouca evidência direta, e por um motivo estrutural: gestantes não são incluídas em ensaios clínicos. A literatura disponível é feita de relatos e séries de casos, e revisões da área descrevem a questão como cercada de incerteza [1,2].

Ausência de estudo não é prova de segurança

Essa é a frase que organiza o assunto inteiro. "Não há relato de problema" e "foi demonstrado que é seguro" são afirmações muito diferentes, e só a segunda depende de estudo controlado.

Uma revisão sistemática sobre procedimentos estéticos na gestação e na lactação registra explicitamente a ausência de ensaios controlados e conclui que é necessária evidência melhor antes de recomendações concretas [1]. Uma revisão anterior, na mesma linha, afirma que recomendações definitivas sobre peelings, injetáveis, preenchedores e a maioria das terapias com laser não podem ser feitas, e que é aconselhável adiar procedimentos estéticos eletivos [2].

Diante disso, adiar não é excesso de zelo. É a conduta que a literatura sustenta.

Os injetáveis e o motivo do adiamento

Procedimentos injetáveis concentram o adiamento por três razões somadas: não há estudo controlado em gestantes, o produto é aplicado num período em que a decisão não é reversível, e o benefício é estético e adiável. O panorama dessa área está em harmonização facial.

Vale registrar a distância entre a prática e a evidência. Num levantamento com 177 dermatologistas nos Estados Unidos, 75% relataram ter aplicado ou recebido toxina botulínica durante a amamentação, sem eventos adversos relatados.

Os próprios autores classificam o achado como gerador de hipótese, não como evidência de segurança, e apontam a lacuna entre o que se pratica e o que se sabe [3]. Declaração sobre a evidência: pesquisa por questionário, com amostra autosselecionada — o nível de evidência mais frágil da lista.

Ou seja: existe prática relatada, não existe demonstração. Essas duas coisas não se substituem.

Tratamentos tópicos que exigem revisão

Parte do que uma pessoa usa na pele rotineiramente entra em revisão na gestação. Isso vale para classes de ativos com absorção sistêmica conhecida ou com contraindicação estabelecida em gravidez, e vale para agentes despigmentantes e esfoliantes usados de forma contínua.

Sobre peelings, a revisão sistemática diferencia por substância: classifica alguns ácidos de uso superficial como considerados seguros e recomenda evitar ou usar com cautela outros [1]. É uma distinção que só faz sentido aplicada por quem prescreve, com a lista de tudo o que a pessoa usa em mãos — não por leitura de rótulo.

A revisão da rotina tópica é, na prática, a conversa mais útil desse período, porque afeta o dia a dia e não exige adiar nada além do que precisa ser adiado.

Melasma na gestação: por que a conduta é conservadora

O melasma se manifesta ou piora com frequência durante a gestação, e a literatura descreve entre seus fatores a interação de predisposição genética, hormônios e exposição à luz [4].

Duas coisas explicam a conduta conservadora aqui. A primeira: é uma condição crônica, de controle e não de cura, o que retira a urgência de tratar durante a gravidez [5]. A segunda: as linhas de tratamento ativo incluem justamente agentes tópicos e orais que precisam de revisão nesse período.

O que permanece é a base do tratamento em qualquer fase — fotoproteção de amplo espectro, cobrindo também a luz visível, que a literatura descreve como parte do tratamento e não como coadjuvante [6]. Declaração sobre a evidência: essa referência tem coautores vinculados à indústria de fotoproteção.

Nenhum texto pode prometer que o quadro regride depois do parto. O que se pode dizer é que a avaliação depois desse período é feita com mais opções disponíveis.

O que costuma ser considerado seguro

A revisão sistemática classifica alguns procedimentos dermatológicos menores como seguros no período, e descreve situações em que laser e luz foram considerados aceitáveis para indicações específicas de tratamento, não estéticas [1].

Não vamos transformar isso em lista fechada, por duas razões. Uma lista dessas envelhece mal, porque a base de evidência é fraca e muda. E ela funcionaria como indicação sem avaliação, que é exatamente o que este tema não comporta.

A orientação central: a decisão passa pelo obstetra

Qualquer procedimento durante a gestação ou a amamentação é uma decisão compartilhada com quem acompanha o pré-natal. O obstetra conhece a idade gestacional, as intercorrências, as medicações em uso e o contexto clínico completo — variáveis que mudam a resposta.

Na prática: leve a proposta ao obstetra antes de agendar, e informe ao serviço de estética que você está grávida ou amamentando, mesmo que o procedimento pareça pequeno.

Quando procurar atendimento

Procure avaliação, sem esperar consulta de rotina, se:

  • você realizou algum procedimento antes de saber que estava grávida — informe o obstetra, isso é frequente e a conduta é avaliar, não se alarmar
  • apareceu reação na pele depois de qualquer produto ou procedimento: vermelhidão que se expande, calor local, dor crescente, secreção ou febre
  • surgiu mancha de instalação rápida, com relevo, sangramento ou mudança de cor — nesse caso, o encaminhamento é dermatológico e independe da gestação

Perguntas frequentes

Fiz um procedimento sem saber que estava grávida. O que faço? Informe o obstetra e o serviço que realizou. É uma situação descrita na literatura e a conduta é avaliação individual, não conclusão antecipada.

Amamentando pode? A lógica é a mesma: pouca evidência direta, conduta de adiar o eletivo, decisão compartilhada. A prática relatada por profissionais não substitui demonstração de segurança [3].

Posso continuar meus produtos de rotina? Leve todos eles — inclusive os que você não considera "tratamento" — para a revisão com quem prescreve. O que a avaliação cobre está em como é a consulta de avaliação estética.

E o melasma que apareceu na gravidez? Fotoproteção é a base. Sobre a condição em si, veja Mancha no rosto: por que o tratamento depende de qual mancha é.


Agende uma avaliação.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Trivedi MK, Kroumpouzos G, Murase JE. A review of the safety of cosmetic procedures during pregnancy and lactation. Int J Womens Dermatol. 2017;3(1):6-10. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ijwd.2017.01.005 (PMID: 28492048)

  2. Lee KC, Korgavkar K, Dufresne RG, Higgins HW. Safety of cosmetic dermatologic procedures during pregnancy. Dermatol Surg. 2013;39(11):1573-1586. DOI: https://doi.org/10.1111/dsu.12322 (PMID: 24164677)

  3. Cucalon J, Taylor D, Tolkachjov SN, Lutwak M, Weiss E. Practice versus protocol: a survey of current botulinum toxin use during lactation and pregnancy in dermatology. Dermatol Surg. 2025;52(7):653-656. DOI: https://doi.org/10.1097/DSS.0000000000004997 (PMID: 41499679)

  4. Ogbechie-Godec OA, Elbuluk N. Melasma: an up-to-date comprehensive review. Dermatol Ther (Heidelb). 2017;7(3):305-318. DOI: https://doi.org/10.1007/s13555-017-0194-1 (PMID: 28726212)

  5. Gan C, Rodrigues M. An update on new and existing treatments for the management of melasma. Am J Clin Dermatol. 2024;25(5):717-733. DOI: https://doi.org/10.1007/s40257-024-00863-2 (PMID: 38896402)

  6. Morgado-Carrasco D, Piquero-Casals J, Granger C, Trullàs C, Passeron T. Melasma: the need for tailored photoprotection to improve clinical outcomes. Photodermatol Photoimmunol Photomed. 2022;38(6):515-521. DOI: https://doi.org/10.1111/phpp.12783 (PMID: 35229368)


Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica.

Precisa de uma avaliação?

A recepção informa agenda, convênios e atendimento particular.

Agende uma consulta