A resposta quase nunca depende de preferência. Depende de anatomia: existe um conjunto de condições que precisam estar presentes para que a prótese de disco seja uma opção, e quando elas não estão, a artrodese é a operação indicada.
O que cada uma faz com o movimento está explicado em artrodese e artroplastia de disco. Aqui o assunto é a escolha entre as duas.
O que cada procedimento faz
Nas duas, o acesso é pela frente do pescoço e o disco doente é retirado. A diferença está no que entra no lugar.
Na artrodese, entra enxerto ósseo com um implante que sustenta o segmento enquanto o osso cresce. As duas vértebras viram um bloco: o nível deixa de se mover, de propósito.
Na artroplastia, entra uma prótese articulada, projetada para permitir que o nível continue se movendo. A intenção é reduzir a sobrecarga transferida aos níveis vizinhos.
Quem é candidato à artroplastia
O perfil descrito nos critérios de seleção publicados é razoavelmente consistente [1]:
- doença degenerativa de um ou dois níveis, com sintoma que corresponde ao nível;
- movimento preservado no segmento a operar;
- altura do disco preservada o bastante para acomodar a prótese;
- qualidade óssea adequada;
- alinhamento cervical aceitável.
O que exclui, ou torna a decisão mais difícil
Estes são os achados que tiram a artroplastia de cena, ou que a colocam em terreno discutível [1,2]:
- artrose facetária significativa no nível — as facetas são a outra articulação daquele segmento; se elas já são fonte de dor, preservar movimento pode manter a dor;
- instabilidade do segmento;
- deformidade ou cifose local relevante;
- osteoporose ou osso de má qualidade, que não sustenta a fixação da prótese;
- doença multinível avançada, com colapso de altura discal e osteófitos em ponte;
- anquilose do nível — se ele já não se move, não há movimento a preservar;
- infecção ativa e alergia conhecida a componentes do implante.
Alguns desses achados são contraindicações relativas, não absolutas: uma coorte retrospectiva com seguimento médio superior a três anos comparou pacientes "típicos" com pacientes que tinham cifose segmentar leve, perda de altura discal, osteófitos em ponte ou cirurgia cervical prévia, e não encontrou diferença significativa nos desfechos clínicos ou nas complicações entre os grupos [2].
É um estudo retrospectivo, de uma única instituição — sugere que os critérios talvez possam ser mais largos, não que já sejam.
O que a evidência mostra na comparação
Metanálises de ensaios randomizados com seguimento longo apontam na mesma direção em alguns desfechos.
Em seguimento de dez anos, a artroplastia apresentou menos cirurgias secundárias e menos eventos adversos que a artrodese. Nas escalas de incapacidade e de dor a diferença foi estatisticamente significativa a favor da prótese, mas não alcançou o limiar de relevância clínica, e o desfecho neurológico não diferiu [3].
Revisões com sete anos ou mais de seguimento descrevem menos degeneração de segmento adjacente e menos reoperação com a prótese [4], e metanálise recente restrita a doença de um nível relata a mesma tendência [5].
Traduzindo: em pacientes que preenchiam os critérios de seleção dos ensaios, os dois procedimentos entregaram melhora clínica comparável, e a diferença consistente esteve em reintervenção.
O que ainda é incerto
Três ressalvas honestas:
A população dos estudos é selecionada. Os ensaios recrutaram justamente o perfil que preenche os critérios de artroplastia. Os resultados não se transportam para quem não preenche.
Há risco de viés na literatura. Uma metanálise de doze ensaios randomizados registrou que nove eram patrocinados pela indústria e que a distribuição dos estudos sugeria viés de publicação — os próprios autores pedem que os achados sejam interpretados com cautela [6].
Durabilidade não está resolvida. Os seguimentos publicados chegam à casa de dez anos. Não existe informação sobre o que acontece em trinta. Para um paciente jovem, essa é uma incerteza real, e ela vale para os dois lados: a artrodese também não tem garantia de estabilidade indefinida.
Há ainda a ossificação heterotópica — formação de osso em volta da prótese, que pode reduzir ou anular o movimento que ela deveria preservar. Ela aparece com frequência considerável nas séries publicadas [2] e nem sempre gera sintoma.
Doença do segmento adjacente, sem alarme
Fundido um nível, os vizinhos passam a se mover mais. Com o tempo, parte deles degenera — e parte disso vira sintoma.
Mas duas coisas precisam ser ditas juntas. A primeira: a degeneração dos níveis vizinhos também acontece em quem nunca operou, porque o disco envelhece. Separar o que é consequência da fusão do que é história natural é difícil, e a literatura não resolve isso. A segunda: mesmo nas séries em que a artroplastia mostra menos degeneração adjacente, a maioria dos operados dos dois grupos não foi reoperada no seguimento [3,4].
Doença do segmento adjacente é um risco a considerar na decisão, não um destino anunciado.
Quando procurar atendimento
Procure pronto-socorro imediatamente diante de perda de força progressiva nos braços ou nas pernas, dificuldade nova para andar ou para segurar objetos, ou perda de controle da urina — sinais de compressão da medula.
Procure avaliação em dias se a dor irradiada para o braço não melhora com o tratamento conservador organizado, ou se surge perda de destreza nas mãos.
Perguntas frequentes
A prótese de disco é mais moderna, então é melhor? Ser mais recente não é critério clínico. As duas têm indicação própria, e a evidência disponível mostra melhora clínica comparável no perfil de paciente estudado [3,4].
Se eu não puder colocar prótese, perdi alguma coisa? Não. Quando os critérios anatômicos não estão presentes, a artrodese é a operação que corresponde ao seu quadro — não um plano B.
A prótese pode ser trocada depois? Existe cirurgia de revisão, e ela costuma converter o nível em artrodese. Não é um procedimento pequeno, e por isso a seleção inicial importa.
Posso fazer os dois, em níveis diferentes? Existem estratégias que combinam fusão em um nível e prótese em outro. É decisão técnica individual, discutida caso a caso.
Leia também
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
- Nunley P, Frank K, Stone M. Patient selection in cervical disc arthroplasty. Int J Spine Surg. 2020;14(s2):S29-35. DOI: https://doi.org/10.14444/7088 (PMID: 32994303)
- Patel N, Abdelmalek G, Coban D, Changoor S, Sinha K, Hwang K, et al. Should patient eligibility criteria for cervical disc arthroplasty (CDA) be expanded? A retrospective cohort analysis of relatively contraindicated patients undergoing CDA. Spine J. 2024;24(2):210-18. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2023.09.017 (PMID: 37774985)
- Quinto ES, Paisner ND, Huish EG, Senegor M. Ten-year outcomes of cervical disc arthroplasty versus anterior cervical discectomy and fusion: a systematic review with meta-analysis. Spine (Phila Pa 1976). 2024;49(7):463-9. DOI: https://doi.org/10.1097/BRS.0000000000004887 (PMID: 38018778)
- Núñez JH, Escudero B, Omiste I, Martínez-Peñas J, Surroca M, Alonzo-González F, et al. Outcomes of cervical arthroplasty versus anterior cervical arthrodesis: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials with a minimum follow-up of 7-year. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2023;33(5):1875-84. DOI: https://doi.org/10.1007/s00590-022-03365-1 (PMID: 35986813)
- Zhang Y, Ju J, Wu J. Comparison of cervical disc arthroplasty versus anterior cervical discectomy and fusion for the treatment of single-segment cervical degenerative disc disease with a minimum of 4-year follow-up: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. J Orthop Surg Res. 2025;20(1):758. DOI: https://doi.org/10.1186/s13018-025-06189-x (PMID: 40797275)
- Zhong ZM, Zhu SY, Zhuang JS, Wu Q, Chen JT. Reoperation after cervical disc arthroplasty versus anterior cervical discectomy and fusion: a meta-analysis. Clin Orthop Relat Res. 2016;474(5):1307-16. DOI: https://doi.org/10.1007/s11999-016-4707-5 (PMID: 26831475)
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